Natal costuma ser resumida pela paisagem de praia, mas quem cozinha a cidade sabe que ela cabe muito mais no prato do que no cartão-postal. "Natal tem uma gastronomia que vai muito além da paisagem de praia", avisa o chef Jonatã Canela, à frente da cozinha do Hotel Barreira Roxa e embaixador do movimento Feito Potiguar. A seu convite, montamos um roteiro que atravessa a capital potiguar pela boca, do prato autoral à tripa crocante de boteco, com direito a um desvio pela estrada até Apodi. A regra, segundo ele, é simples: não ficar só no óbvio. "Reserve espaço para comer bem, conversar, experimentar e descobrir."

Comece pela cozinha contemporânea
Para entender como a despensa potiguar se traduz em alta gastronomia, Jonatã manda começar pelo Zeh Cozinha, no bairro de Petrópolis. É o tipo de casa que pega os ingredientes do sertão e do mar norte-rio-grandenses e os apresenta com técnica e frescor, sem perder o sotaque local. Uma boa porta de entrada para quem quer sentir, logo de cara, que a cozinha da cidade tem autoria e ambição.

O sabor de rua que tem a cara do litoral
Do restaurante contemporâneo, o roteiro desce para a comida que se come em pé, de preferência com a mão. A primeira parada é o Mercado da Redinha, endereço clássico da ginga com tapioca, aquele peixinho frito dobrado na tapioca que, nas palavras do chef, "tem a cara do nosso litoral". Dali em diante, a lista de Jonatã é um retrato da mesa potiguar sem maquiagem: carne de sol com queijo de coalho, tapioca, camarão e caranguejo, mas também goiamum, pirão de queijo, buchada, sarapatel e o surpreendente caldo de ova de curimatã, que talvez assuste o visitante desavisado e diga muito sobre a cultura alimentar da região. Para o chef, é justamente nesse território menos óbvio que mora a graça. A comida daqui, resume, "não precisa se enfeitar para ter identidade".

A cozinha de raiz
Há um trio de endereços que Jonatã recomenda para quem quer comida de panela, farta e sem firula. A galinha caipira da Galinha Caipira do Garibaldi, em Parnamirim, na região metropolitana, é um clássico de domingo. O chambaril do Cobra Choca, ossobuco cozido até desmanchar, aquece as mesas de um dos botecos mais tradicionais da cidade. E a tripa crocante do Boteco do Gordinho mostra como um petisco simples, bem executado, vira programa. São casas diferentes entre si, mas que contam, cada uma a seu modo, os hábitos e as preferências de quem vive em Natal.
Fora do óbvio: um desvio até Apodi
O endereço de que o chef mais gosta fica longe da orla. Em Apodi, a cerca de três horas e meia da capital, a Churrascaria do Bom entrega uma experiência de estrada: comida farta, hospitalidade de interior e uma sobremesa que virou atração à parte, uma carta de pudins com mais de uma centena de sabores. "Quase uma atração à parte", diz Jonatã, que vê nesses lugares simples e cheios de personalidade uma parte importante da gastronomia potiguar. A lição do desvio ele entrega numa frase: "Às vezes, vale mais pegar a estrada sem pressa do que seguir um roteiro pronto."

Como chegar e o que levar
Natal é servida pelo Aeroporto Internacional Governador Aluízio Alves, em São Gonçalo do Amarante, a cerca de 40 quilômetros do centro, com voos diretos de várias capitais brasileiras. Dentro da cidade, carro de aplicativo e táxi dão conta dos deslocamentos entre os bairros, mas para os endereços fora da capital, como Apodi, o ideal é alugar um carro e encarar a estrada com calma. Leve roupa leve, protetor solar e disposição para andar: o clima quente pede hidratação constante e o roteiro gastronômico mistura ambientes com e sem ar-condicionado. E, principalmente, vá com fome e sem pressa.
Horários, cardápios e valores podem mudar; recomenda-se confirmar diretamente com cada casa antes de ir.
Roteiro indicado pelo chef Jonatã Canela (@jonatacanela), Chef Executivo do Hotel Barreira Roxa, em Natal, e Chef Embaixador do Feito Potiguar.
Foto: Divulgação